quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Entrevista - Hoje no Figueira na Hora

Pedro Agostinho Cruz é fotógrafo profissional. O fotojornalista divide o seu tempo com outras actividades comerciais, com particular destaque para o sector dos casamentos.
Pessoalmente, assume-se como um homem de causas, que vive e respira a sua cidade e se preocupa com as suas gentes.
Conversámos brevemente com Pedro Cruz sobre estas duas facetas da sua vida e colocámos algumas questões.
O foto-jornalismo é hoje a tua actividade profissional principal?
A fotografia é a minha actividade profissional. O fotojornalismo faz parte disso.
O chamado «jornalista-cidadão», procurado por alguns órgãos de comunicação, poderá ditar o fim da tua profissão ou causar algum tipo de dano?
Como todos sabemos o jornalismo já viveu melhores dias. É preciso gostar muito de jornalismo, informação e da comunicação para andar por cá. 
Esta questão do «jornalista-cidadão» é uma forma sem custos que os órgãos de comunicação social em parte foram “obrigados” a optar para fazer em muitas circunstâncias os mínimos. Na minha opinião, é triste e lamentável. A profissão não ganha com isso. Ao contrário do que se pensa não há mais informação com isso. Há mais desinformação, e o rigor e a qualidade da mesma é o que sabemos. 
É só estar atento e olhar para o lado e temos alguns exemplos disso.
Há hoje mais ou menos cuidado pela imagem que se publica em jornais e revistas? Há novos ângulos a explorar?
Há uma noção maior da importância da imagem. Mas o rigor e exigência na minha opinião deviam ser maiores. As coisas acontecem muito rápido e o telemóvel em alguns casos ainda continua a ser o melhor amigo. 
Claro que há excepções e temos entre jornais e revistas meia dúzia de publicações a trabalhar muito bem nessa área. Sabem usar as novas ferramentas nos momentos certos e publicar com qualidade nos meios que assim exigem. 
Quantos aos ângulos, há sempre novos enquadramentos visuais e editoriais a descobrir. Haja abertura dos editores e exigência dos leitores.
Para ti, qualquer é a principal diferença entre jornais e rádios ditos tradicionais e os que se fazem com recurso a plataformas digitais?
Os jornais e rádios ditos tradicionais ganham na proximidade, mas perdem para as novas tendências do jornalismo na rapidez e no acesso à informação.
Mas na minha opinião não são comparáveis. Aliás, devemos olhar para elas como uma relação de complementação.
Falar de jornalismo é, também, falar de comunicação.
A nível institucional local (Câmara Municipal e juntas), na tua opinião há alguma aposta neste segmento?

Hoje não chega comunicar. É preciso saber comunicar. Conheço meia dúzia de casos nacionais de sucesso. A minha cidade tem melhorado aos poucos a esse nível. Mas tem de fazer mais e melhor.
Não existe uma relação de proximidade nesse campo com os cidadãos. Falta um plano, há muitas pontas soltas. Acho que se devia repensar numa estratégia, plataforma, forma de estar e comunicar.
Mais, é fundamental e um bom princípio aprender com os erros do passado e sensibilizar as pessoas que trabalham ou que venham a trabalhar nessa área que o façam para servir/promover e esclarecer o município, e não para se servirem/ promoverem ou auto esclarecerem.
Nazaré e Figueira da Foz. Imagens e promoções bem diferentes dos potenciais do turismo de mar. A que se deve esta realidade?
A grande diferença é que na Nazaré existe um plano/estratégia a curto, médio e longo prazos. Já se sentia isso quando comecei a frequentar a Nazaré em 2009, neste seguimento das ondas grandes. Era evidente que este fenómeno tinha tudo para dar certo. Hoje é o que sabemos.
A Figueira continua a olhar para o mar, a pensar no agora. Surgem aquelas campanhas de divulgação da cidade que parte dos figueirenses não entende e nem sabe actualmente em que fase se encontra.
Vamos agora deixar de lado o profissional e falar do Pedro cidadão.
O projecto «Alerta Costeiro» deu algum tipo de frutos? Qual o ponto da situação?

Alerta Costeiro foi um projecto que expôs muitas das debilidades e fragilidades da cidade. Foi um projecto de fotografia/foto-reportagem sério, responsável e independente onde ficou evidente que a cidade não estava preparada para tal.
Eu e todos aqueles que estivemos envolvidos no projeto (Frederico Malaca, João Serpa e Bruno Lucas) estamos orgulhosos do que fizemos, mas não estamos satisfeitos. Queríamos ver todos os pinheiros que plantámos verdes e não é essa a realidade. Mas ainda há alguns e isso dá-nos alento.
O projecto teve o seu tempo. Metemos as pessoas a olhar e pensar sobre a problemática da erosão costeira. Era isso que queríamos! Tentámos fazer algo e conseguimos.
Este alerta continua vivo e com o tempo vão dar conta disso, infelizmente.
Estamos a falar de causas e tu abraçaste outra: recordar o naufrágio do Olívia Ribau e dos que nele perderam a vida. A exposição que assinaste é uma forma de perpetuar essa memória? Ou será uma forma de «pressionar» quem de direito a fazer algo?
As duas! Senti essa necessidade. A minha profissão também exige isso. Não tenho medo de estar exposto, ser criticado, ou seja lá o que for. A minha forma de estar é assim.
Detesto o politicamente correto, não tenho feitio para isso e falo dos assuntos sem pinças.
Eu sei que tenho uma relação muito especial com os fotógrafos da cidade, mas ainda não percebi porquê, confesso.
Faz-me confusão a passividade e a falta do olhar deles sobre temas que exigem de nós, que nos fazem crescer a todos os níveis. Temos de assumir posições, responsabilidades, etc.
Claro que é mais fácil e cómodo alimentar a nossa quintinha da comunidade virtual com fotografias bonitas que possam ser traduzidas em likes ou seguidores. Opções!..
E desde então, algo foi feito?
Boa pergunta.
Mais recentemente, acompanhaste alguns dos incêndios que assolaram o centro do país. Que imagens guardas?
Foi um dos trabalhos mais exigentes que fiz. Estive em Pedrógão Grande e pensava que tinha visto tudo que não queria ver. Estava enganado. A 15 de outubro voltei a ver mais, muito mais do que não queria ver.
Guardo imagens de um país negro, famílias destroçadas e vidas perdidas. Lamentável!
Sempre que podes, paralelamente ao trabalho puro e duro, tentas captar rostos e expressões. És um contador de estórias?
Sim! Posso dizer que sim! No fundo, também ando a fazer a foto-biografia da minha vida. É assim que vejo as coisas.
Tens em mãos algum novo projecto, alguma exposição, alguma causa que entendas ser importante divulgar?
Sim tenho! Vai ser mais um alerta. Fizeram-me um convite/desafio que não podia recusar e estou a conhecer um outro lado da cidade.
Acho que as pessoas vão ficar surpreendidas. Mas ainda não comecei a fotografar. Alias, conto voltar ao terreno em breve.
A finalizar, que diferença existe do Pedro de há 10 anos e o Pedro de hoje?
Bem, aos 19 anos já andava com uma máquina fotográfica na mão. Já conhecia e lidava com o stress diário dos jornais e redacções.
Eu sei que é parvo, mas passados 10 anos continuo a achar que posso mudar o mundo com as minhas fotografias.
Continuo a fazer o que gosto, como gosto e tenho a sorte de algumas pessoas gostarem.
Continuo a acreditar que posso fazer coisas boas a partir da minha cidade. Hoje, vejo que há gente que caminha também nessa estrada e isso deixa-me satisfeito.
Para concluir, continuo a dormir descansado e isso nos dias de hoje é um privilégio.

(Jorge Lemos)

Entrevista - Hoje no Figueira na Hora

Pedro Agostinho Cruz   é fotógrafo profissional. O fotojornalista divide o seu tempo com outras actividades comerciais, com particular dest...